Mostrando postagens com marcador Florbela Espanca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Florbela Espanca. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de junho de 2014

Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem... 
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...) 
Sonho que um outro sonho me desfez? 
Fantasma de que amor? Sombra de quem? 

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?... 
- Não sei se tu, amor, assim me vês!... 
Nossos olhos não são nossos, talvez... 
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!... 

És tudo e não és nada... És a desgraça... 
És quem nem sequer vejo; és um que passa... 
És sorriso de Deus que não mereço... 

És aquele que vive e que morreu... 
És aquele que é quase um outro eu... 
És aquele que nem sequer conheço... 

(Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas") <3

terça-feira, 8 de março de 2011

Um dia lindo para nós... Mulheres!

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste de uma flor!...

(Florbela Espanca - A uma Rapariga)


Parabéns a nós... guerreiras... MULHERES!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Horas rubras

Horas profundas,lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…


Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas…


Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…


Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

(Florbela Espanca)
(in Antologia de Poetas Alentejanos)

sábado, 13 de novembro de 2010

"Errante", de Florbela Espanca.

---> Por enquanto, prefiro mostrar a você, leitor, a personalidade em eterna construção desta alma metida a querer ser "escrevedora poeta" que sou, usando como instrumento as palavras que me inspiram sempre, para uma possível e almejada compreensão do mundo estranho que construo aqui.
Eis que começo com minha poetisa favorita, Florbela Espanca, com um dos seus vários e lindos poemas em que me encontro...


"Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…
Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…
Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!"

(Errante, do livro Trocando olhares - 23/04/1917)